São Silvestre – Parte II
Ao todo foram quatro corridas durante o ano, antes da tão esperada São Silvestre. Foram duas corridas de 5km, uma de 6km e outra de 10km... correr 15km ainda me parecia uma monstruosidade, mas acreditava que a força de vontade sempre superaria uma possível falta de ritmo, fôlego ou coisa do tipo, ou seja, se faltar algo vai na raça!Só pelo fato de passar o fim/começo de ano com as pessoas que mais amo num hotel da região da Av. Paulista já bastaria pra ser uma virada perfeita, mas o motivo de estarmos lá nessa ocasião era a corrida de São Silvestre, a Mônica e meus pais estavam presentes pra também me dar aquela força.
Clima de concentração total no dia da corrida, logo depois do almoço um passeio de chinelo pela Paulista junto com os pais e namorada, para sentir o clima da festa, os preparativos para a virada na avenida estavam a todo o vapor. Chegando no quarto do hotel, um banho de banheira para relaxar e mentalizar a corrida (onde iria me poupar mais e onde iria puxar mais um pouco, aquela coisa toda)...
15h, estava chegando a hora da largada feminina, ver o percurso pelo qual iria passar seria importante, fui assistir a corrida. Ótima corrida por sinal, mas perto da chegada da prova feminina, vendo pela tv e pela janela, estava pra acontecer o que eu mais temia: chuva! Chuva não, um pé d´agua! Pois foi assim que acabou a prova feminina, debaixo de chuva... e também foi assim desde a hora de me dirigir à Paulista! Infelizmente meus pais não iriam ver a largada pessoalmente devido ao tempo, nem a pessoa que mais me incentivou poderia ver também, mas ela, ao se despedir de mim na porta do hotel, me encheu do melhor combustível que alguém pode receber, seu abraço e suas palavras naquele momento explicariam perfeitamente o significado da palavra “amor”, era a carga positiva que eu estava precisando pra sair no meio daquela chuva toda até a largada... e assim fui, com o aceno à ela que eu não poderia dar no momento da largada, mas a minha largada estava sendo ali, junto com ela e a minutos antes de realizar aquele desejo de infância!
Por causa da chuva e da correria que ela proporciona, não pude encontrar um amigo pra largarmos juntos, mas sabia que todos que estavam ali, como nós, estavam felizes e ansiosos praquele momento que marcaria nosso fim/começo de ano e por que não dizer as nossas vidas?
Momentos antes da largada, “Chariot of Fire”! Clássica e emocionante! E a chuva? Bem, não parava de jeito nenhum e nem diminuia.
Enfim, chegou a hora: Largada!!! Agora é pra valer... todos batendo palmas, mas demorou um bom tempo pra começarmos a correr, pois eram 15.000 pessoas! Tudo era festa e ninguém estava preocupado mesmo em começar a correr logo, mas quando começaram a empolgação era enorme, até mesmo pra aliviar o incomodo da chuva. Quando passei pela linha de largada já tinham se passado aproximadamente 15 minutos e mesmo assim ainda tinha um mar de gente para trás.1km – Início da descida da Consolação. Muitas poças, mas isso se repetiria ao longo de boa parte do percurso. Nessa parte, muitos se empolgam ainda mais, pois logo após o agito e a adrenalina da largada já pegam 2km de decida logo de cara... nesse trecho preferi guardar gás pra partes mais difíceis pela frente.
3,5km – Esquina da Ipiranga com a Av. São João. Sim, alguma coisa aconteceu no meu coração! Estava chegando no centrão de São Paulo, ali comecei a sentir que em meio aquela corrida, estávamos todos como sangue nas veias daquele concreto todo, estávamos cravados na alma de São Paulo naquele momento.
5km – Elevado Costa e Silva, o Minhocão. O trecho com maior participação do público, prédios e prédios ao redor e em praticamente todas as janelas, pessoas incentivando, jogando papel picado... me sentia um jogador num estádio, isso deu um gás legal! Mas a melhor parte foi ser ultrapassado pelo Buzz Lightyear, valeu a inscrição! Ao infinito e alem...
7,5km – Av. Marques de S. Vicente. Metade da corrida e onde pensei “Caralho, como eu to longe da Paulista...”. Hora de começar a gastar o gás e dar uma puxada, pois daqui alguns Kms viria trechos difíceis.
10km – Av. Rio Branco. A maior reta da prova e um trecho praticamente plano. Já tinham se passado os viadutos da Av. Pacaembu e da Av. Rudge e com eles veio uma leve dor no tornozelo direito, eram muitas poças de água e alguns buracos, era preciso atenção.
11km – Largo Paissandu. Estava chegando no centro de novo, á direita a galeria do rock! \m/
12km – Teatro Municipal / Viaduto do Chá. Mais cara do centro do que isso, impossível. Ali já começava a sentir que o sonho era sim possível e que estava próximo, e somado à isso, pessoas desejando Feliz 2007 aos corredores. Outra sensação boa que nos da energia pro final da prova.
13km – Brigadeiro Luis Antonio (início). A tão temida subida da Brigadeiro chegou! Até que a temerosidade já estava se desmanchando naquele momento, mas algo me deixou novamente temeroso: cãibras! A perna direita travou... “ótimo, já não bastava a leve dor no tornozelo?” Precisei andar por cerca de 2 minutos e graças a Deus ela diminuiu bastante e pude continuar a correr (o que foi um alívio, cheguei a pensar em parar ou terminar apenas andando devagar).
14km – Brigadeiro Luis Antonio. Depois do pequeno susto, mais do que nunca me senti na obrigação de retribuir a ajuda lá de cima (sim, acredito nisso) correndo em direção a Paulista com toda a raça possível e o fôlego restante!
14,5km – Esquina da Brigadeiro com a Paulista. Nesse momento nem parecia que tinha corrido toda essa distância, também não parecia que eu estava com a roupa encharcada, com o tênis cheio de água dentro, com dores... tudo o que vivi nesse momento foi o ano de 2006 em flashes na minha cabeça, o melhor ano da minha vida, o ano inteiro que passei com a mulher que amo, o apartamento que compramos, a minha família que sempre me deu apoio, os amigos de verdade, as pessoas que desejaram boa sorte... também lembrei do pequeno André que tinha vontade de um dia estar vivendo aquele momento, “essa também vai pra você, moleque!”
15km – Chegada! Uma visão divina, enfim a linha de chegada... pra mim não foi só a linha de chegada da São Silvestre, foi também a sensação de total dever cumprido e de um ano maravilhoso que passou e outro melhor ainda e mais promissor que estaria por vir. Esse momento levou alguns segundos, mas pareciam longos minutos, momento pra ser curtido e levado num top5 da sua vida. Sonho realizado, corrida completa em 1:52:30! Minha meta era apenas completar a prova, de preferência em 2:00:00 ou menos... missão cumprida!
Depois foi apenas mais uma caminhada pra pegar a medalha e voltar com ela pro Hotel, pra junto das 3 pessoas que amo nessa vida e comemorar essa “vitória” com eles. Deus, como foi bom vê-los sorrindo assim que me viram, e enfim, um momento sem chuva... mas obrigado pela chuva, ela também ajudou a lavar minha alma!
Esse foi um relato de um sonho de infância realizado e de uma experiência de vida que recomendo... Obrigado!
Que 2007 seja cheio de vitórias pra todos vocês!
Abraços




